A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe

A Máquina de Fazer Espanhóis, do escritor português (nascido em Angola) Valter Hugo Mãe (Valter Hugo Lemos), é um livro comovente e profundo que trata da solidão, do envelhecimento, da velhice, da morte. Trata também do abandono (especialmente do abandono dos filhos), da eutanásia (o narrador menciona a necessidade de que tivéssemos um “mecanismo de expiração instantânea”), da saudade (o narrador se refere a um casamento que durou 48 anos; logo no início do livro conta como perdeu a esposa amada).

Arnaldo GodoySpacca

O livro também discute o anticlericalismo (o autor abomina a estátua de uma santa que lhe deram quando chegou ao asilo). É também um livro com fortíssima carga de crítica política. O regime salazarista (chefiado, segundo o narrador, por um “padreco de voz feminina” é referido como a grande causa do atraso português. Com todo o respeito. Concordo.

O narrador é um barbeiro aposentado que contava 84 anos de idade. Recordava a perda da esposa (páginas comoventes). Fazia uma autocrítica. Ressentia-se do modo bovino como se comportou ao longo do regime ditatorial de Salazar. Fazia um balanço de sua vida. A exemplo daqueles que hoje se autodenominam de “pessoas de bem” o narrador via-se como um participante do “fascismo dos bons homens”. Lembrou de um opositor do ditador que se escondeu em sua barbearia. Lembrou também (com muita vergonha) que denunciou o rapaz. Nesse ponto, no entanto, justificava-se: tinha dois filhos pequenos (miúdos, como se diz em Portugal) para criar. Entendia que não poderia ter agido de outra forma.

Foi internado no asilo contra sua vontade. Abandonado pelo filho (que vivia na Grécia) e pela filha (por demais ocupada com o marido e com os filhos) viu-se subitamente forçado a reinventar a vida no pouco tempo que certamente lhe restava.

O asilo chamava-se “Feliz Idade”. Uma denominação suspeita e assombrosa. E o autor, bom lembrar, dedicou o livro a seu pai, “que não viveu a terceira idade”. Bem ao lado do asilo havia um cemitério, talvez como mera lembrança que “Feliz Idade” seria apenas um lugar de passagem rápida.

O narrador não se conformava com o abandono. Arrumava suas coisas (conta que possuía apenas dois sacos de roupa, e nada mais). Sentia que a mulher ainda estava a seu lado. Começou sua estada no asilo com uma rebeldia ríspida, um “mutismo casmúrrico”. A filha o deixa, com um “beijo traidor”. O narrador viu-se sem braços, sem pernas, sem coração, sem voz; não conseguia se comunicar.

Porém, vai-se adaptando. Percebe que os demais velhos mentiam sobre seus respectivos passados para não se sentirem humilhados. Começou a falar a partir do sexto dia em que estava no asilo. Reparou uma mulher “magoada e triste, velha e um pouco histérica para suportar o abandono e a morte”. Entre os amigos que fez, o mais velho de todos, com 100 anos, dizia-se o “Esteves sem metafísica” do poema de Fernando Pessoa, na voz do heterônimo Álvaro de Campos (Tabacaria).

Virei a última página do livro sob o impacto de forte emoção, comovido com a metáfora de que é uma injustiça existir. Os sonhos dos velhos, diz o narrador, são como as memórias dos peixes, duram apenas três segundos. Nos demais velhos, companheiros de asilo, o narrador via uma outra família pela qual não teria esperado, unida sem parecenças no sangue. É uma família unida apenas no destino da distribuição da solidão uns dos outros.

Nas palavras do narrador, “nunca percebemos a vulnerabilidade a que chegamos. Nunca percebemos como um estranho nos pode pertencer”. Isto é, “não era nada esperada aquela constatação de que a família também vinha fora do sangue”.

Valter Hugo Mãe é formado em direito e pós-graduado em Literatura Portuguesa. É também apresentador de TV, poeta, músico; é uma figura central na cultura lusófona contemporânea.

 


Ficha: Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis, São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

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