Annie Ernaux (nasceu em 1940) é uma escritora francesa que ganhou o Nobel de Literatura em 2022. Acho seus livros encantadores. A autora aproxima e mistura, com elegância, autobiografia, romance, memórias, observações sociológicas, história. É daquelas escritoras para quem tudo o que é humano não é estranho. Nascida e criada na Normandia, Ernaux descreve a vida provinciana francesa ao longo do século 20. Sua escrita é “plana”. Frases curtas, diretas, livros curtos, no mais das vezes com menos de 100 páginas.
Em O Lugar, Ernaux conta a história de sua família. Começa o livro narrando a morte do pai, extraindo do ocaso de uma vida uma significação da condição operária, que é ao mesmo tempo camponesa e remediada. O pai foi camponês na infância e na adolescência. Melhorou de vida trabalhando na indústria. Deu um grande salto abrindo e conduzindo um pequeno comércio.
Autora descreve a vida desses interioranos
Assistiam a filmes mudos. Alguém lia as legendas em voz alta. Quase todos eram analfabetos. Porém, o ledor era pouco letrado; não conseguia terminar as frases; não lia no tempo certo; e logo vinha a próxima cena.
SpaccaAs fábricas empregavam crianças com 13 anos de idade. O pai da escritora era elogiado pelos patrões porque não se envolvia com sindicatos. Não gostava de político e não gostava de política. Mais tarde, dono de um pequeno comércio, o pai temia os direitistas da Cruz de Ferro, e tinha medo da turma da esquerda. Achava que os comunistas tomariam o seu negócio.
A autora descreve relações sociais marcadas por fortes distinções de classe. Alguns tinham apenas o que era preciso ter. Comida, calefação (na cozinha), duas mudas de roupa (uma para a semana e a outra para o domingo). Quando a roupa diária ficava imprestável era substituída pela roupa de domingo, que então era substituída. Havia cuidado com a aparência; temiam o que as outras pessoas pensavam.
Ernaux explora a simplicidade da língua falada pelos pais: um “patois” normando. Lembrei-me dos livros de Marcos Bagno (professor aqui em Brasília), que trata com muita proficiência o problema gravíssimo do preconceito linguístico. Recomendo (desse autor) a Dramática da Língua Portuguesa. O livro foi publicado pela Loyola. O pai e a mãe da escritora não falavam um francês correto, o que ampliava a vergonha para com as origens camponesas.
A autora percebe um dia que o pai estava velho e enrugado (mas, que pai não fica um dia velho e enrugado?). Lembrava os velhos de asilos, acamados, que Ernaux visitava com a diretora de sua escola. Nesses dias os velhos cantavam canções de Natal.
O leitor percebe que a autora revela “sentimentos guardados no fundo do bolso”. O Lugar pareceu-me um livro encantador que nos remete a nossas próprias memórias, em forma de angústia, mas também em forma de orgulho e de alegria.
Annie Ernaux, O Lugar, São Paulo: Fósforo, 2021. Tradução de Maria Garcia
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